Em 1950, a renda per capita do Brasil correspondia a 10% da americana, e a da Coreia do Sul menos do que isso – e o Brasil era mais rico do que o país asiático. Hoje, nossa renda per capita equivale a 20% da americana, e a da Coreia do Sul, 70%. Segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 2023 o PIB per capita sul-coreano foi de US$ 35.563, quase quatro vezes o brasileiro, de US$ 9.032.
O professor Tiago Cavalcanti, da Universidade Cambridge e da FGV-SP, aponta que a estabilidade e a consistência macroeconômicas são essenciais para o desenvolvimento, algo que falta ao Brasil. Nossa relação dívida/ PIB é 20% superior à coreana, mas não tem trazido infraestrutura e serviços públicos melhores do que os deles, muito pelo contrário. Mesmo gastando muito, tem educação inferior e produtividade estagnada.
A trajetória da dívida pública é ditada pelo resultado primário (receitas menos despesas), mais os gastos com juros. Quando o resultado é negativo, temos um déficit nominal, que pressiona a dívida. Segundo o BTG Pactual, a partir de dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Central (BC), o Brasil fechou 2024 e 2025 com o segundo pior déficit nominal entre 23 países emergentes de renda média e economias desenvolvidas. Nosso déficit equivale ao dobro da média dos países latino americanos, o que leva o mercado a entender que a dívida continuará subindo, e faz o prêmio de risco aumentar, elevando o custo para financiar a dívida. É o ciclo vicioso que vivemos.
Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, é cético em relação à situação fiscal e aponta medidas necessárias: corte nos gastos da previdência e na folha de pagamentos do Estado (que representam 80% dos gastos), e nos subsídios tributários, que equivalem a 7% do PIB. Fraga, como outros economistas, tem a convicção de que um ajuste mais profundo traria resposta positiva do mercado e investidores.
Temos visto no Brasil, medidas de redução do déficit pelo aumento da receita. É um modelo esgotado, pois já temos a maior carga tributária entre os emergentes. E a transferência de recursos da iniciativa privada, que gasta com mais eficiência, para o Poder Público, que gasta mal, compromete a boa alocação dos recursos na economia
e, por consequência, a produtividade, o que é confirmado pelas estatísticas. Temos, então, um triplo desafio fiscal no país: o Estado gasta muito mal e, além disso, é tolhido por um orçamento engessado. E são esses os fatores que têm limitado a evolução do rating do Brasil nas agências de risco.
A poupança doméstica é fundamental para financiar o investimento de um país. Segundo o FMI, enquanto países asiáticos de forte crescimento registraram altas taxas de poupança doméstica – Índia e Indonésia na casa dos 30% e China acima de 40% – e vizinhos como Chile e México em torno dos 20%, o Brasil apresentou 14,5%, em 2024, recuando pelo terceiro ano seguido, e estabilidade em 2025. O economista Alberto Ramos, do Goldman Sachs, atribui a queda ao déficit público: “o governo gastou a rodos, saímos de um déficit nominal de 4,7% do PIB, em 2022, para 8,45%, em 2024. E não foi um aumento associado ao investimento público” critica. O economista Armando Castelar, da FGV, observa que “a despoupança do governo é, historicamente, o que explica o baixo nível de poupança no Brasil.” Assim, com muito gasto, pouca poupança e baixo investimento, estamos envelhecendo com um crescimento contido. E como bem lembrou o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan, “não há registro de país que tenha enriquecido depois de ter envelhecido.” Que a Coreia do Sul nos inspire.
CARLOS RODOLFO SCHNEIDER
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Empresário e presidente da Ciser, é um dos idealizadores do Movimento Brasil Eficiente (MBE), membro do Conselho Superior de Economia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e do Conselho Empresarial da América Latina (Ceal).