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Entrevista
30/04/2009 03h10

Grito de Alerta

No mês de abril, o Brasil declarou a China como seu maior parceiro comercial, tanto para importações quanto para exportações. Mas essa diplomacia traz benefícios ao setor parafuseiro?

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior brasileiro, a China se tornou o nosso principal parceiro econômico. A corrente de comércio Brasil- China, no mês de abril, somou US$ 3,2 bilhões, enquanto que com os Estados Unidos foi de US$ 2,8 bilhões. O Brasil exportou para a China cerca de U$ 2.231 milhões de dólares, e importou aproximadamente U$ 1 bilhão.

No consolidado do ano, o comércio entre Brasil e China chegou a US$ 10,2 bilhões, um aumento de 13,9% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foi de US$ 8,9 bilhões. Segundo o secretário de Comércio Exterior do MDIC, Welber Barral, este é um resultado histórico, já que os Estados Unidos era o principal parceiro do Brasil nas últimas oito décadas. O governo salientou ainda que o comércio com a China manterá a tendência de crescimento ao longo deste ano, assegurada por uma aproximação política que se revela. Na avaliação de Barral, a previsão é de que os países asiáticos tenham uma recuperação mais rápida face à crise internacional e que se tornem o eixo do comércio exterior mundial. Mas na hora da importação, como é realizada a concorrência envolvendo empresas brasileira e chinesas? Qual é a prática de negociação? Bom para uns, ruim para os outros... E a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco!
(Foto à direita: Milton Bisconti, diretor da globopor Indústria e Comércio de Parafusos)

Na área de elementos de fixação, o aumento das importações chinesas tem desestabilizado alguns empresários. O motivo? A prática de preços muito baixos pela China, e até mesmo, a fraude em notas fiscais no momento em que as mercadorias chegam em solo brasileiro, descriminando um produto de valor inferior, mas entregando outro de melhor qualidade e preço maior. O sócio proprietário da Globopor Indústria e Comércio de Parafusos, Milton Bisconti, manifestou grande preocupação sobre os reflexos que o comércio chinês tem causado nos fabricantes brasileiros e faz um alerta muito importante para as autoridades e todos os envolvidos na cadeia do setor de fixação.

Revista do Parafuso (RP): Qual a sua opinião sobre a importação de fixadores da China?
Milton Bisconti (MB): É importante termos concorrência, desde que ela seja justa. Antigamente, havia muito poucos produtores de parafusos. Estes, por sua vez, trabalhavam com prensas modestas e guardavam a “sete chaves” suas tecnologias. Depois vieram as máquinas de Taiwan (dentre outros países) e começou-se a comprá-las com um preço relativamente barato. Mas hoje, infelizmente, ao invés de se importar máquinas, estão importando produtos acabados. A questão não é impedir a entrada dessas mercadorias no Brasil, é sim estabelecer uma linha de conduta na concorrência. É preciso ter regras que permitam a competitividade e, principalmente, que ela seja respeitada.

RP: Como foi o processo de crescimento das importações da China?
MB: Segundo informações extra-oficiais, em 2000, o Brasil importava aproximadamente 1 mil toneladas de arame industrial para produzir parafusos aramados, grades etc., por mês, o equivalente a US$ 468,00 a tonelada. Em 2008, foram 13 mil toneladas de arame industrial; isso sem contar as demais toneladas que vieram como material acabado. Para se ter uma ideia, os arames chegam no porto de Santos a U$ 650,00 a tonelada, com os impostos pagos e um crédito de ICMS de 18% ou um pouco mais. Eu, que compro material no Brasil, direto da usina, tenho um ICMS de 12% e pago em torno de R$ 1.200,00 mais caro pela tonelada do material. E mais, o Brasil exporta a matéria-prima e traz o produto acabado por um preço menor que o praticado no mercado interno. (Pode haver variações quantitativas nestes valores)

RP: Quais as consequências que essa prática traz ao mercado brasileiro?
MB: Hoje é mais viável eu fechar minha fábrica e dispensar os 40 funcionários que emprego. Eu trabalharia como distribuidor, apenas importando e comercializando parafusos. Ou seja, para mim não compensa mais fazer parafusos, pois o mesmo produto que custa R$ 4,00 o quilo aqui no Brasil, vem pronto da China por R$ 3,00 ou 2,00, a exemplo da barra roscada. Entretanto, em consequência disso, eu também desestabilizaria outros empregos que estão diretamente ligados com meu serviço, como as galvanizadoras, empresas de embalagens etc. Por este motivo, defendo que enquanto se importa máquinas, trazemos benefícios para o Brasil, modernizamos nosso parque industrial e podemos ser competitivos. Mas não é o que acontece, quando se importa os parafusos.

RP: E por que essa diferença de valores tão grande?
MB: Primeiro, porque o aço na China é mais barato. Acredita-se (e isso não é uma afirmação) que o importador também não declare o valor real do produto, ou seja, se ele paga US$ 450,00 no aço, ele declara 30% dele. E com o parafuso, essas irregularidades são ainda maiores. Então pergunto: como um fabricante pequeno no Brasil será capaz de sobreviver com esse tipo de competição? Os empresários do ramo precisam tomar conhecimento do que está acontecendo, pois isso acabará com os empregos do setor de fixação no País, e isso é muito sério. Contamos muito com a ajuda dos sindicatos, que precisam saber qual a causa das demissões e combatê-las. Se continuar desta forma, deixaremos de ser um País industrial, para ser apenas de consumo e comércio; vamor nos tornar apenas distribuidores de elementos de fixação.

Bisconti chama a atenção para as importações: "Precisa-se estabelecer regras para haver uma concorrência mais justa"

RP: Os sindicatos deveriam lutar para abaixar as cargas trabalhista e tributária cobradas pelo governo brasileiro? Isso seria uma forma dos produtores terem preços mais competitivos?
MB: A ação realizada em 2007 pelo Sinpa – Sindicato das Indústrias de Parafusos, Porcas, Rebites e Similares – deveria ter sequência. Na ocasião, as mercadorias que chegavam pelos portos e aeroportos de todo o Brasil eram fiscalizadas com rigor e todos os produtos foram sobretaxados pelo sindicato. O Sinpa seria o nosso porta-voz. Por outro lado, se o governo brasileiro abaixar os impostos, isto também beneficiará os importadores. Então, é preciso estabelecer medidas que beneficiem as empresas nacionais. Eu converso com os fabricantes de aço, e todos reclamam das importações. Eles já abaixaram os preços, mas ainda está alto para competir com os chineses. Eu acredito que se eles colocarem o aço a R$ 2,00, encontraremos um chinês a R$ 1,50.

Antigamente, para se importar uma mercadoria, era preciso provar que ela não existia no Brasil. Mas hoje esse comércio é livre. Vamos dizer que o mercado tem que ser dessa forma, mas desde que em uma condição mais justa de concorrência. Penso que colocar barreiras protecionistas causariam sérios problemas, mas devem haver regras rigorosas. Não podemos deixar as importações sufocar os fabricantes brasileiros. O exemplo da Argentina é um excelente caso para analisarmos e evitarmos que tais medidas, como a que tomou o atual governo, sejam necessárias. Hoje, não existe mais o livre comércio na Argentina, que chegou a um ponto insustentavel. Então, o governo de lá protegeu a indústria nacional e valorizou seus fabricantes.

RP: Você já perdeu negócios para importadores?
MB: Hoje, o principal fator em uma negociação é preço. De cada dez cotações, cinco eu perco, mas não consigo rastrear para quem eu perdi. Entretando, os números de importações da China te dão a resposta. Ressalto que como experiência, eu só tenho a minha. Não sei como estão os negócios dos meus concorrentes e o que pensam sobre tudo isso.

RP: Quais suas considerações finais?
MB: É irreversível a atual situação, existem vários acordos comerciais que estão inseridos em um amplo contexto de toda a federação brasileira, e não podemos exigir atenção exclusiva aos problemas do parafuseiro. Mas temos que gritar por mudanças e lutar por empregos. A ação do Sinpa em 2007 foi correta, mas é preciso dar continuidade a esse trabalho. Quando um produto chegar ao Brasil, a Declaração de Importação deve ser analisada. Verificar o que tem dentro de um container, avaliar a mercadoria e o seu custo. Tudo o que estiver irregular, tem que ser encaminhado para o Ministério Público. Hoje, sou apenas um soldado perdido no meio de uma batalha.Estão matando as pequenas empresas, e sinto que eu estou indo para a forca.

A Globopor está instalada em uma área de 1.500 m2. Possui 40 funcionários, que operam em torno de 40 máquinas. Produz elementos de fixação para telhados, parafusos franceses, rebites e outros componente agregados, como porcas e arruelas. Em 2007 e 2008, produzia aproximadamente 300 toneladas por mês. No final de 2008, no fatídico momento da crise mundial, sofreu uma queda brusca, que ainda se reflete mês após mês. Atualmente, Milton Bisconti tem produção entre 120 e 130 toneladas ao mês. Desde 2007, não dispensou uma mão de obra de sua firma.

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